domingo, 28 de fevereiro de 2010

A minha coisa favorita de estar em casa sozinho no verão é tirar o leite do frigorifico, encher uma tigela, mergulhar os colhões e depois dar ao gato da vizinha. Porquê?, perguntam vocês enquanto tiram um dedo do cu e dão a cheirar ao vosso namorado. Primeiro, porque é Verão e acordo com os colhões tão quentes que estão praticamente fundidos às minhas coxas. Segundo, porque o leite suaviza a pele e toda a gente sabe que mamar num colhão macio é outra coisa.Terceiro, o filho da puta do gato mija-me à porta de casa e já não é a primeira vez que escorrego na poça enquanto estou a trazer um pedaço de cona para casa, estragando assim as hipóteses de brincar ao 'Onde está o Salpicão?'. Assim não só refresco os colhões, aumentando as minhas hipóteses de os lamberem por serem frescos e macios, mas também dou a provar ao gato o sabor do meu suor de virilha. Tenho dito.

Este post, assim como o que se encontra por baixo dele, é dedicado ao Amor.

Filipe Amor, that is.

Boa noite.

Um carro chegou à praceta coberto pelo manto da noite. A matrícula lia 'TapDatAzz' e o motorista era um jovem encapuzado que fumava um cigarro e deixava sair o fumo da sua boca, saboreando o tabaco que se desvanecia no ar da noite. As luzes no interior do carro, vermelhas, faziam com que o fumo parecesse fogo e com que o condutor parecesse algo de outro mundo, mas ele não se importava. Neste momento, era melhor ser temido que amado. Respirando o fumo, abriu a porta do carro e saiu. Não se via ou ouvia ninguém na rua. Óptimo. O que estava prestes a fazer não ia ser fácil de explicar a alguém que sabia o que se passava, quanto mais a uma pessoa completamente ignorante do mundo à sua volta. Tirando um grosso pau de giz do seu bolso das calças, começou a desenhar um circulo quase perfeito no chão, com algumas runas de aspecto antigo. Quando acabou o 'desenho', puxou a manga direita do casaco até ao cotovelo, mostrando uma luva que lhe cobria o braço, feita de aço vermelho. Chamas dançavam na superfície do material, mesmo que o único fogo nas redondezas fosse o seu cigarro. Apagou-o nesta luva e soltou um baixo gemido de dor. O fogo, que parecera apenas um desenho, ganhou vida e quebrou o negro da noite. Ajoelhou-se e tocou no circulo de giz, que desapareceu instantaneamente, deixando ficar apenas uma pequena circunferência de chamas no que havia sido o centro do desenho. Respirou fundo, e acendeu outro cigarro. 'Agora é só esperar', pensou. 
     Olhou à sua volta. As casas estavam todas pintadas de branco, com cercas de madeira castanha, envernizada. Tinham todas uma árvore no quintal e algumas tinham brinquedos em frente à garagem. Enquanto observava estas casas, sentiu que alguém também o observava a ele. O chão começara a tremer e quando olhou para o que outrora havia sido o seu desenho, viu uma criatura cornuda, com asas de gelo e coberta de pêlos. Trazia um punhal à cintura e as runas que havia desenhado no chão estavam agora no peito do animal. A sua cara contorcia-se em esgares estranhos, um misto de prazer e dor, caretas que fariam o mais bravo dos homens fugir de medo. Mas não Filipe. Estava ali numa missão e era o único que a poderia cumprir. Não por ser o mais bravo, ou o mais forte. Sentia medo e os seus músculos tremiam de vontade de fugir. Mas não podia. Não hoje. 
     Desde que encontrara a luva, não passava um dia em que não amaldiçoasse a sua curiosidade. Porque é que havia de ter ido receber a herança do tio? Tinha conseguido passar a vida toda sem ninguém, desde que fora abandonado numa igreja, mas quando recebeu a notícia de que era procurado por um advogado que tinha algo para lhe dar, não resistiu. Lembrava-se perfeitamente de quando abriu o pequeno cofre de bronze e exclamou 'É só isto? Viajei 400 quilómetros por uma luva que nem sequer tem par?'. Ignorando completamente as instruções do advogado para nunca a calçar, experimentou-a assim que chegou a casa. Assomado por milhares de pensamentos ao mesmo tempo, lembrou-se de mil vidas passadas e mil vidas futuras. Lembrou-se de ser um cavaleiro e receber Excalibur. Lembrou-se de ser um Cruzado e esconder o Santo Graal. De matar dragões e comer os seus corações. De ser o homem mais poderoso à face da Terra e deitar tudo a perder por uma mulher. Foi necessário um esforço digno de um Deus para voltar a acordar, mas acordou. Haviam passado três dias e três noites e a luva tinha engolido o seu braço, vermelha com chamas, rejeitando qualquer tentativa de ser retirada. Cansado, com sede e fome, bebeu e comeu tudo o que tinha no seu frigorífico e despensa. A sua fome saciada, foi dormir. Mal fechou os olhos, viu-se a sacrificar por uma mulher. Não a sacrificar a sua vida, mas o seu poder. Viu-se a entregar a sua espada, a sua armadura, as chavas do seu tesouro, os seus livros de magia. Teve mil visões e em todas elas, sacrificou-se por uma mulher de cabelo cobalto e olhos cor de trigo. Acordou com uma voz que vinha do seu quarto e o avisava '...rder, não desta vez, é a nossa última hipótese, não podes perder, não desta vez'. Sentou-se na cama e procurou a fonte da voz. Uma pequena gárgula estava empoleirada aos pés da sua cama e quando os seus olhares se cruzaram, exclamou 'Desculpe-me, mestre! Desculpe, desculpe, desculpe'. 'Que raio?!' exclamou Filipe, enquanto saltou para fora da cama e se encostou à parede. 'Mestre, tem que vir comigo, temos pouco tempo e..'. 'E nada, caralho, sai do meu quarto, não me basta já a puta da luva que nem punhetas posso bater sem assar a pila toda, agora ando a alucinar gárgulas que falam, foda-se mais a minha vida'. 'Mas mestre, a luva é o único artefacto que possuímos, a única maneira que temos de invocar o notório Biaigi!'. 'Quero é que esse se foda, deixa-me em paz que já não cago há três dias, vou ficar sentado em merda'. Neste momento, a gárgula salta para cima do Filipe e grita 'Não, invoque o demónio, temos que o matar, temos que salvar o mundo, não cague já, não, não, invoque o demónio, temos que o matar'. Derrotado, Filipe abana a cabeça num gesto afirmativo que fez com que a gárgula relaxasse.'Então que demónio é esse que não posso cagar sem o matar antes?'.
     E aqui estava ele, três meses depois, em frente ao demónio que o havia morto mil vezes antes, após ele ter entregue tudo o que o tornava poderoso, o demónio que havia destruído o mundo mil vezes antes. E apenas ele e a sua luva, a luva que havia sido tocada pelo sangue que escorreu da única ferida que o demónio alguma vez sofreu, estavam agora entre o vil animal e o apocalipse. Nas últimas mil vidas, havia entregue o artefacto que podia impedir Biaigi, havia escolhido uma mulher em vez da sabedoria milenar, em vez de matar o demónio. Mas não hoje. Havia-se certificado que escolhia o cruzamento das linhas Ley com menos probabilidade de ter alguém ao pé. Todos os moradores das casas haviam sido avisados de uma infestação de abelhas africanas e só voltariam daí a uma semana. 'Tu é que me mataste mil vezes? Com esse punhal apaneleirado? Fuck that'. 'Não, nem sempre te matei com o meu punhal. Por vezes esventrei-te com as minhas mãos, outras estrangulei-te... Podes nunca ter tido uma morte limpa, mas sempre tiveste uma morte divertida' exclamou o demónio, com um sorriso enorme que revelara os seus dentes, limados até terem pontas como lâminas. 'Ainda bem que gostaste, porque com esta luva não me podes tocar, e só olhares deve exigir um esforço imenso.'.'Essa é a luva... A luva que usaste quando me feriste...' disse Biaigi, mostrando um buraco uns centímetros abaixo do coração.'Felizmente, falhaste.' disse, e um riso demoníaco inundou a rua. Filipe riu-se também enquanto puxou uma espada brilhante, coberta de pedras preciosas e vários escritos em várias línguas. 'Vou-me certificar que isso não acontece hoje.'. Ao começar a correr em direcção ao demónio, apercebeu-se do sorriso que nascera na cara da besta. Seguiu a direcção do seu olhar e percebeu porquê. Uma rapariga de cabelo cobalto e olhos cor de trigo saiu de uma casa, usando apenas um vestido de noite. Era a rapariga que viu nas suas visões. A rapariga que o fazia deitar tudo a perder. Tão depressa quanto possível, o demónio materializou-se ao pé da rapariga, encostando o seu punhal à sua tenra garganta. 'Olha, olha, cá estamos outra vez. Já sabemos como isto funciona, não é? Tu dás-me a luva, eu não mato a rapariga, não morro, fica toda a gente feliz. Menos os que morrem. Que agora que penso nisso, é toda a gente. Portanto suponho que apenas eu fique feliz. Que se foda, sou um demónio, não é suposto ser boa pessoa.'. A rapariga, cujo olhar mortificado se fixava no de Filipe, suplicou 'Não lhe dês a luva, mata-o, mata-o já, caga em mim, uma vida não é mais importante que seis biliões!'. A espada que Filipe agarra com tanto fervor tinha caído. Não tinha ouvido nada do que se havia passado. Estava abismado com a beleza da rapariga. Tudo o que havia no mundo podia desaparecer, desde que ele a pudesse beijar só uma vez. 'Tic tac, tic tac, Filipe, como é que vai ser? Dás-me a luva ou a rapariga morre?'. 'Dou... Eu dou-te a luva, dá-me a rapariga.'. Enquanto o demónio atirou a rapariga a Filipe, a luva caíra ao chão, imóvel, fria. Ao ir ter com a mulher que o esperava, ajoelhada no chão, o demónio trespassou-o com o seu punhal. 'Nunca disse nada sobre não te fazer mal.'. Filipe sorriu, o sabor cobreado do sangue na sua boca: 'Eu também não disse que não te ia matar.'. Com a sua mão direita, puxou uma pequena faca de dentro do casaco e espetou-a no coração do demónio, que gritou de dor e desapareceu em cinzas. 'Acho que desta vez não falhei.' exclamou, antes de cair nos braços da jovem. 'Eras mesmo capaz de destruir o teu destino, o destino do mundo, por minha causa?'. Responde-lhe Filipe 'Um beijo teu é um destino tão melhor que a vitória.'.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Ahhhh.... Cagar. Não o simples acto de defecar, mas também o acto simbólico da exorcização dos demónios do dia. O bem que me sabe sentar as minhas nádegas da cor de porcelana, mas uma porcelana máscula, no trono branco da minha casa de banho. Reparem que todos os pensamentos do dia vão com o cagalhão para o Atlântico assim que puxamos o autoclismo. É toda uma dança, um movimento que exige partes iguais de cérebro e corpo quando, por exemplo, tenho o cagalhão a fazer festas aos boxers. Exige cérebro porque tenho que me concentrar para não deixar os suores frios deixarem-me desidratado e tenho que planear o caminho mais curto entre o sítio onde estou e a minha sanita (só cagar em casa é que me sabe bem). Poderia dizer que todo o homem que já se sentiu à rasca para cagar é um engenheiro de renome, pois mais ninguém consegue fazer tantos cálculos com um tassalho de merda a querer fugir. Exige também força a nivel físico pois a força que tenho que exercer com as minhas nádegas para impedir o malandro castanho de ver o mundo exterior é equiparável à de Hércules, aquando completava as suas Doze Tarefas. E depois, o prazer que me dá deixar cair o cócó na água fria da sanita, o respingar da água fria que me arrefece o cu que depois de tanto tempo fechado se sente cansado e dorido. É um ritual que não perco por nada. E, claro, é na sanita que ocorrem os grandes momentos de reflexão do Homem. Estamos sozinhos, vulneráveis, em contacto com cheiros alucinogénos (de acordo com as refeições anteriores). Não se poderiam recolher melhores condições para revelações filosóficas. E é também na sanita que gosto de abrir as minhas cartas e os meus e-mails, ver filmes de terror... Porque se me vou cagar todo, ao menos que cague com redobrada força de algum mail com uma imagem menos apropriada. Além de que é o momento que mais se aproxima de dar à luz, sendo um homem e logo ai merece pelo menos cinco minutos de atenção. Onde eu quero chegar é que gosto do ritual de cagar e queria que toda a gente soubesse. Bem hajam e bem caguem.

Boa noite.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Quando vejo uma série antiga sou imediatamente abatida por uma enorme onda de nostalgia que apaga tudo o que esteja a sentir no momento. Enquanto estou a ver episódio atrás de episódio, já não sou eu. Não tenho vinte anos, não tenho prazos a cumprir ou pessoas a agradar. Não tenho que fingir ou mentir. Tenho outra vez 7 anos e estou a ver pela primeira vez uma sitcom. Tenho 12 anos e sinto uma verdadeira relação com os personagens. Sinto a minha vida a mudar com as decisões, conscientes ou não, que faço. E essas decisões, influenciadas pela minha ainda pouca experiência de vida, eram também influenciadas pela série que via. Posso dizer que estas personagens, estas "pessoas", fazem tão parte de mim quanto os meus pais, a minha irmã, os meus amigos. Talvez mais. Sinto que lhes criei um mundo dentro de mim, um mundo que cada vez visito menos, não por falta de vontade, mas porque não tenho tempo para isso. Há sempre algo mais importante, e acabo por me ir esquecendo deles. Mas quando me sinto mal, quando me sinto triste, posso contar com eles. Posso ver um episódio, uma curta visita de vinte minutos à vida destes "amigos" que abandonei e sinto-me imediatamente melhor. Sinto saudades da inocência que tinha quando vivia com eles. Sinto saudade da primeira vez que ouvi um álbum do Paul Simon e senti que ele estava a falar comigo. Sinto vontade de abraçar a Helen e o Paul do 'Mad About You', de fazer parte do mundo deles. Quero rir-me outra vez com os Friends, mas não consigo, já sei os episódios de cor e sei o que vão dizer antes deles o dizerem. É claro que tenho novas séries, novos álbuns, mas nada é igual. Tudo muda, e nós mudamos também. Ver uma série antiga, que via quando era criança, ou adolescente, e ser inundado por nostalgia é um dos maiores prazeres que imagino possivel. Só não se compara ao prazer de outrora.


Boa noite.